Indo na contramão da agricultura convencional, a agroecologia surgiu com uma nova proposta de produção. A agroecologia é o conceito de uma nova agricultura e caminha na contramão da agricultura convencional. 

A agroecologia é uma alternativa sustentável. Em nível global e local, enfrentamos vários desafios no sistema alimentar – inundações, degradação do solo, colapso da biodiversidade, desnutrição e obesidade.

A agroecologia surgiu com uma nova proposta de produção.  Em vez de ajustar as práticas de sistemas agrícolas insustentáveis, a agroecologia busca transformar os sistemas alimentares e agrícolas, abordando a causa raiz dos problemas de uma forma integrada e fornecendo soluções holísticas e de longo prazo. Isso inclui um foco explícito nas dimensões sociais e econômicas de sistemas alimentares.

Quer entender mais sobre o que é a agroecologia, como ela surgiu e qual a sua importância para a agricultura? Neste post vamos explicar tudo para você. Confira! 

O que é a Agroecologia

Agroecologia é um termo genérico que cobre muitas práticas agrícolas com as quais você pode estar mais familiarizado, como orgânica, biodinâmica e permacultura.

A agroecologia é um modelo de agricultura alternativa baseada na integração e aplicação de conceitos ecológicos e sustentáveis na produção de alimentos

De acordo com a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), “a agroecologia ajuda a apoiar a produção de alimentos e a segurança alimentar e nutricional enquanto restaura os serviços ecossistêmicos e a biodiversidade que são essenciais para a agricultura sustentável”.

Além de considerar o manejo responsável dos recursos naturais, o modelo da agroecologia constitui um campo de conhecimento científico, que integra os saberes históricos dos agricultores com o avanço da ciência. 

Sabemos que os sistemas de cultivo intensivo contribuem para diversos problemas. Eles exaurem os recursos naturais com foco em ganhos de curto prazo em vez da sustentabilidade a longo prazo que funciona melhor para a terra, a vida selvagem e as comunidades locais. 

De fato, precisamos de um sistema alimentar alternativo que seja verdadeiramente sustentável. A boa notícia é que muitas das soluções estão na agroecologia. Onde o orgânico se encaixa na agroecologia? Continue a leitura e descubra.

Como surgiu a Agroecologia? Veja a história

O novo conceito de produzir alimentos surgiu de forma gradual. A agroecologia iniciou-se na Europa, um pouco antes do fim da 1º Guerra Mundial, com a preocupação da população em consumir alimentos de qualidade.

Após a Segunda Guerra Mundial, a agricultura ganha um incremento com o surgimento de adubos sintéticos, agrotóxicos e sementes melhoradas. A euforia em todo setor agrícola foi evidente com o crescimento da produção, e toda essa evolução ficou conhecida como Revolução Verde.

O novo modelo de agricultura contrariava as leis naturais provocando em todas as partes do mundo, movimentos que visavam resgatar os princípios naturais de cultivo. 

No Brasil, o movimento de agricultura alternativa iniciou-se na década de 70, com base na contestação ao modelo criado na Revolução Verde. O movimento ganhou ainda mais força na década de 80, quando foram realizados quatro Encontros Brasileiros de Agricultura Alternativa.

A partir de então, outros encontros, congressos, seminários e reuniões foram realizados no país, e com isso, associações e legislações foram criadas para difundir, incentivar e fortalecer a agroecologia no Brasil. 

Qual a diferença entre Agroecologia x Agricultura Orgânica? 

A agroecologia é facilmente confundida com a agricultura orgânica. Grande parte da população não sabe diferenciar um modelo do outro e acreditam ser a mesma coisa, no entanto, são sistemas diferentes.

A diferença não está apenas no produto final, mas em todo processo de produção, desde a escolha do local até os métodos de manejo utilizados e as condições dos trabalhadores no campo. 

Entenda que a agricultura orgânica é uma forma de agricultura agroecológica, onde todos os agricultores orgânicos são obrigados a cumprir um conjunto estrito de padrões.

Isto é, para que um produto seja considerado orgânico é necessário descartar a utilização de agrotóxicos em todo processo de produção, considerar as condições dos trabalhadores, a compatibilidade com o ecossistema local, solo saudável e a industrialização no processo. Esses padrões garantem maior bem-estar animal, menos pesticidas e antibióticos etc.

Embora seja muito mais saudável, a produção orgânica não envolve a mesma responsabilidade social e ambiental defendida pela agroecologia. Em suma, a principal diferença entre o selo orgânico e agroecológico está no fator social.

A produção orgânica é um pouco mais avançada, exige técnica e questões legais. Isto é, para que um produto receba certificação de orgânico é necessário seguir todas as recomendações que a legislação determina. 

Ao contrário da agroecologia, que não possui leis que determinam como o alimento deve ser produzido, qual o manejo a ser adotado, e quais tipos de produtos podem ser utilizados.

Outro fator relevante é que a agroecologia preza pela interação das pessoas e pela produção autossustentável, em que o produtor é capaz de desenvolver seus próprios insumos (adubos, sementes, produtos para controle de pragas) com o que têm disponível na sua terra.

Quer saber tudo sobre agricultura orgânica? Confira aqui neste conteúdo especial.

A importância da Agroecologia para a agricultura

A Agroecologia desenvolve um papel fundamental na agricultura moderna, por conta dos diversos benefícios que proporciona, como a qualidade de vida, a sustentabilidade do sistema, a valorização do trabalhador, a rastreabilidade e a qualidade dos produtos. 

Quem adota o sistema de produção da agroecologia têm como premissa pensar no coletivo e não apenas no individual, priorizando a agricultura familiar. 

Dessa forma, a agroecologia é um importante modelo de desenvolvimento rural, que busca modificar as formas convencionais de produzir alimento a partir da adoção de práticas sustentáveis. 

Quais são os 10 princípios da agroecologia? 

A fim de encorajar os países a trabalhar em prol de uma agricultura e sistemas alimentares sustentáveis ​​em escala global, a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) identificou 10 princípios da agroecologia que destacam as propriedades importantes na implementação de um sistema agroecológico:

10 Princípios da Agroecologia
1Diversidade
2Cocriação e compartilhamento de conhecimento
3Sinergias
4Eficiência
5Reciclagem
6Resiliência
7Valores humanos e sociais
8Cultura e tradições alimentares
9Governança responsável
10Economia circular e solidária

Esses 10 elementos são interdependentes, tornando vital para os formuladores de políticas, profissionais e várias partes interessadas serem holísticos ao planejar, gerenciar e avaliar as medidas agroecológicas. 

Alguns pontos para considerar sobre a produção agroecológica

  • A conservação e ampliação da biodiversidade dos ecossistemas, tendo em vista o estabelecimento de interações entre solo, plantas e animais, ampliando o agroecossistema da propriedade;
  • Assegurar as condições de vida do solo, permitindo a manutenção de sua fertilidade e o desenvolvimento saudável das plantas, através de práticas como a cobertura permanente do solo, adubação verde, proteção contra ventos, práticas de conservação do solo, rotação e consorciação de culturas, cultivo em faixa, entre outras;
  • Utilizar espécies e variedades adaptadas às condições locais de solo e clima, minimizando exigências externas para o bom desenvolvimento da cultura;
  • Assegurar a produção sustentável, sem utilização de insumos químicos que possam degradar o ambiente, fazendo uso da adubação orgânica e de manejo fitossanitário integrado utilizando práticas culturais, mecânicas e biológicas;
  • Diversificar as atividades na propriedade, buscando a integração entre elas para maximizar a utilização dos recursos e diminuir a aquisição de insumos externos.
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Agroecologia no Brasil e o surgimento de Políticas Públicas

A agroecologia vem ganhando cada vez mais espaço no território brasileiro, e o estado do Rio Grande do Sul apresenta diversos exemplos de produção de alimentos nesse modelo, com milhares de projetos, apoio à comercialização e realização de encontros de capacitação de agricultores e técnicos em agroecologia.

Para incentivar a agroecologia e a produção orgânica, o governo federal desenvolveu através do Decreto Nº 7.794 de 20 de agosto de 2012, o Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (PNAPO).

O PNAPO foi um importante passo para a ampliação e efetivação de ações de promoção de desenvolvimento rural sustentável, que enfatiza a transição agroecológica e a produção orgânica, contribuindo para o desenvolvimento sustentável por meio da oferta e consumo de alimentos saudáveis com o uso racional dos recursos naturais.

O primeiro ciclo do plano abrangeu o período de 2013 a 2015, resultando em amplo conjunto de ações públicas que envolveu a destinação de aproximadamente R$ 2,9 bilhões de reais, incentivando a conversação entre agentes públicos e privados em torno da agroecologia. 

Em continuidade, o segundo ciclo do plano foi lançado no período de 2016 a 2019, com o processo de atualização técnica a partir de revisões e ajustes propostos pelas áreas responsáveis pelo plano. 

Na versão atualizada, toda Assistência Técnica e Extensão Rural passa a ser orientada com enfoque agroecológico e todas as iniciativas são organizadas em seis eixos estratégicos:

  1. Produção;
  2. Uso e Conservação de Recursos Naturais;
  3. Conhecimento;
  4. Comercialização e Consumo;
  5. Terra e Território;
  6. Sociobiodiversidade.

As principais metas são destinadas ao fortalecimento das redes de produção de base agroecológica e orgânica, ao aumento da oferta de Assistência Técnica e Extensão Rural (Ater), a ampliação ao acesso à água e sementes, bem como ao acesso dos consumidores a alimentos saudáveis sem uso de agrotóxicos ou transgênicos, ao fortalecimento para as compras governamentais de produtos e o fortalecimento econômico das famílias agricultoras.

Busca-se o diálogo e a articulação entre os estados e municípios para a efetivação do plano, de forma a integrar as políticas públicas setoriais de incentivo. 

O Incra é um dos representantes governamentais da Comissão Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (Cnapo), responsável pela elaboração do plano, cujas diretrizes estão a promoção da soberania e segurança alimentar e nutricional, do direito humano à alimentação adequada, assim como de sistemas justos e sustentáveis de produção, valorizando a agrobiodiversidade. 


Vimos que a agroecologia baseia-se na aplicação de conceitos e princípios ecológicos para otimizar as interações entre plantas, animais, humanos e o meio ambiente. Ela promove soluções justas baseadas nas necessidades, recursos e sistemas locais, visando a criação de mais mercados equitativos e sustentáveis.

A agroecologia coloca as aspirações e necessidades de quem produz, distribui e consome alimentos no cerne dos sistemas alimentares.

Vale ressaltar que os conceitos agroecológicos baseiam-se, principalmente, nos conhecimentos tradicionais e locais e nas culturas correspondentes. A agroecologia combina esse conhecimento com as descobertas e métodos da ciência moderna. 

Em suma, a força da agroecologia está na combinação das ciências ecológicas, biológicas e agrícolas, junto com a medicina, as ciências nutricionais e sociais. 

Lei também: Perigos da pseudociência infiltrada na Agroecologia

Saiba mais!

Você pode conhecer um pouco mais da Agroecologia e suas políticas públicas de incentivo acessando o site do governo: Brasil Agroecológico.

Autoria da redatora do Ifope:
Karina Rosalen