Herbicidas: o que são, como agem e seus impactos na agricultura

O uso de herbicidas é um dos métodos mais comuns de manejo de plantas daninhas. Se utilizados da forma correta, os herbicidas são altamente eficazes no controle e combate de espécies vegetais prejudiciais ao desenvolvimento de plantas já cultivadas.

Adiante abordaremos diversos pontos relevantes sobre o tema.

O que são herbicidas?

Na agricultura, é comum que plantas indesejadas cresçam em meio às plantações e prejudiquem seu crescimento, interferindo negativamente na qualidade do plantio e favorecendo a instalação de outras pragas e doenças. Diante da necessidade de controle e combate a essas plantas, os herbicidas são substâncias químicas amplamente utilizadas na agricultura.

Como os herbicidas agem?

O papel dos herbicidas é dificultar processos ou funções essenciais de plantas daninhas, atuando em locais específicos dentro dessas plantas.

Entender como os herbicidas atuam auxilia na utilização correta dessas substâncias químicas, além de facilitar o diagnóstico de possíveis problemas em seu desempenho.

Tipos de herbicidas e sua eficiência diante de diferentes situações

A maior parte das classificações dos herbicidas abordam o comportamento dessas substâncias químicas, suas características ou seu modo de utilização. Conheça os principais tipos:

Seletividade

Herbicidas seletivos

Comumente adotados na agricultura, os herbicidas seletivos matam ou impedem o crescimento de plantas daninhas sem causar danos à cultura de interesse após sua aplicação.

Essas substâncias podem ser subdivididas em:

  • Seletividade genuína, fisiológica ou biológica: as plantas são capazes de tolerar a exposição aos herbicidas em determinadas situações em função da metabolização a compostos poucos ou não tóxicos.
  • Seletividade adquirida ou transgenia: modificações genéticas nas culturas principais, que passam a tolerar melhor determinados herbicidas.
  • Seletividade toponômica ou de posição: aqui não há contato dos herbicidas com as culturas principais, apenas com suas sementes e com as plantas daninhas.

Exemplos: trifluralin, clethodim e fluazifop, utilizados no controle de gramíneas, e bentazon, acifluorfen e lactofen, utilizados no controle de folhas largas.

Herbicidas não-seletivos

Herbicidas não-seletivos têm amplo espectro de ação, capazes de matar as plantas daninhas e causar danos severos à cultura de interesse.

Exemplos: glifosato e sulfosate, utilizados na dessecação em áreas de semeadura direta, e paraquat, diquat e amônio-glufosinato, comumente associados à dessecação pré-colheita.

Vale ressaltar que nenhum herbicida pertence rigorosamente aos grupos de seletivos ou não-seletivos, visto que a seletividade é função da interação entre fatores variados, além do largo espectro de espécies de plantas afetadas por eles.

Logo, conclui-se que a seletividade dos herbicidas é a chave para bons resultados no manejo de comunidades infestantes, pois considera a tolerância da cultura principal à substância química utilizada, para que níveis seguros de aplicação sejam garantidos.

Translocação

Herbicidas tópicos

Herbicidas de contato não se translocam ou se translocam limitadamente, atuando somente nas partes em que entram em contato direto com os tecidos das plantas daninhas.

Exemplos: diquat, paraquat e lactofen.

Herbicidas sistêmicos

Diferentemente dos herbicidas de contato, os herbicidas sistêmico se translocam facilmente nas plantas daninhas, através do xilema, tecido vascular que permite o transporte de água e sais minerais da raiz para outras partes do vegetal, e do floema, outro importante tecido de condução de água, sacarose, aminoácidos, vitaminas etc. A fim de garantir bons resultados, a umidade e o bom preparo do solo devem ser assegurados na aplicação desses herbicidas.

Exemplos: 2,4-D, glifosato, imazethapyr e flazasulfuron.

Época de aplicação

Pré-plantio (PP)

São utilizados para dessecar comunidades infestantes antes do plantio da cultura, geralmente aplicados após a emergência das plantas daninhas.

Exemplos: glifosato, paraquat, diquat e glufosinate-amonnium.

Pré-plantio incorporado (PPI)

Aplicados diretamente no solo, antes da emergência das plantas. Esses herbicidas precisam ser incorporados mecanicamente ou por meio de irrigação, de modo a facilitar a absorção das substâncias químicas e, consequentemente, impedir o desenvolvimento de plantas daninhas. 

Exemplos: trifluralin, pendimethalin, molinate, butylate, pebulate e vernolate.

Pré-emergência (PRE)

Sua aplicação ocorre após o plantio, mas antes da emergência da cultura principal e/ou das comunidades infestantes. Esses herbicidas necessitam de solo bem preparado e irrigado para cumprirem seu papel.

Exemplos: atrazine, diuron, metribuzin, alachlor, acetolachlor, linuron e bromacil.

Pós-emergência (POS)

São herbicidas aplicados diretamente às folhas das plantas daninhas, pós-plantio da cultura. A tolerância à exposição direta da cultura a essas substâncias químicas deve ser alta.

  • Pós-emergência em área total:

São herbicidas seletivos à cultura principal, genuinamente ou de forma adquirida. Podem ser aplicados sem proteção na barra.

Exemplos: glifosato e glufosinate-amonnium em plantas transgênicas e alloxydim-sodium, clopropoxydim, sethoxydim, fenoxaprop-p-ethyl, propanil, asulam e bentazon em plantas tolerantes.

  • Pós-emergência dirigida:

Herbicidas não-seletivos à cultura principal. São ser aplicados nas entrelinhas da cultura, comumente com proteção na barra.

Exemplos: glifosato, paraquat, diquat, dicamba e dalapon.

Mecanismo de ação

No mecanismo de ação, a classificação dos herbicidas considera o primeiro evento metabólico nas plantas onde eles atuam, ou seja, após a aplicação das substâncias.

Diferentemente do mecanismo de ação, o modo de ação engloba todo o comportamento dos herbicidas do seu primeiro contato com as plantas à manifestação final dos seus efeitos tóxicos.

Classificação dos herbicidas segundo o mecanismo de ação

  • Enzimáticos: quando o herbicida atua em enzimas específicas do metabolismo das plantas;
  • Não-enzimático: atua diretamente no metabolismo das plantas, sem que haja associação a enzimas específicas.

Essas categorias podem ainda ser divididas em alguns subgrupos:

Enzimáticos

  • Inibidores da ACCase;
  • Inibidores da ALS ou AHAS;
  • Inibidores da biossíntese de carotenoides, subdivididos em: inibidores da HPPD e inibidores da síntese de carotenoides com ação em enzima desconhecida 
  • Inibidores da EPSPs;
  • Inibidores da GS;
  • Inibidores da PROTOX (ou PPO).

Não-enzimáticos

  • Mimetizadores de auxinas;
  • Inibidores da biossíntese de lipídeos (não-ACCase);
  • Inibidores da divisão celular, subdividisos em: inibidores do arranjo de microtúbulos e inibidores da biossíntese de ácidos graxos de cadeia muito longa
  • Inibidores do FSII;
  • Inibidores do FSI.

E, afinal, quais são os impactos ecológicos associados ao uso de herbicidas nas plantações?

Em se tratar de herbicidas, é estritamente necessária a avaliação a médio e longo prazo dos impactos que essas substâncias podem causar no agroecossistema. Segundo um documento lançado pelo Instituto Nacional do Câncer (Inca) em 2015, o Brasil lidera o ranking de consumo mundial de agrotóxicos, que incluem, além dos herbicidas, substâncias reguladoras e inibidoras de crescimento, inseticidas, fungicidas, nematicidas, acaricidas, moluscicidas, formicidas, etc. Nessa vasta lista de substâncias, os herbicidas representam 48% do total de agrotóxicos, seguidos pelos inseticidas (25%) e pelos fungicidas (22%) (PELAEZ et al., 2010).

Pulverizações desnecessárias ou com altas dosagens, acima do recomendado, podem influenciar diretamente no desequilíbrio da biodiversidade. O glifosato, por exemplo, é o agrotóxico mais comercializado no mundo, seguido do 2,4-D, e está presente em 110 produtos vendidos no Brasil, de 29 empresas distintas. A resistência de certas culturas a essa substância, como o algodão, o milho e a soja, permitiu a ampliação do seu uso nas lavouras para matar comunidades infestantes, resultando em altos ganhos em produtividade e rentabilidade.

Entretanto, seus efeitos vêm sendo questionados pela comunidade científica, já que essa substância pode influenciar direta ou indiretamente na macro e microfauna se utilizado em quantidades acima do permitido. Alguns estudos ainda sugerem que o glifosato está ligado ao câncer e outras doenças.

Além disso, devemos atentar-nos ao fato de que, se utilizados fora dos padrões recomendados, herbicidas e agrotóxicos no geral podem causar, a longo prazo, a resistência de plantas daninhas, por pressão de seleção ou mutação genética, induzindo o desenvolvimento de substâncias químicas ainda mais fortes.

Melhorar as técnicas agrícolas, além de adotar estratégias de manejo integradas de plantas daninhas, contribui para a redução dos números de aplicações de herbicidas e, consequentemente, diminui os riscos de danos às culturas e ao agroecossistema como um todo.

➡️ Leia ainda: Resistência de plantas daninhas a herbicidas

Questões sobre herbicidas para treinar

(INEP – 2016 – ENADE – Agronomia) O glifosato é um herbicida muito utilizado em todo o mundo e sua importância é reconhecida internacionalmente. Nos últimos anos, no entanto, problemas relacionados à resistência de plantas daninhas a esse herbicida revelam que está havendo falha no manejo. A constante discussão e avaliação desse produto, no contexto mais amplo da resistência, é conveniente, como forma de se preservar o uso sustentável dos herbicidas.

GAZZIERO, D. L.P. et al. A Era Glyphosate. In: MESCHEDE D. K;; GAZZIERO, D. L. . (Org)) A Era Glyphosate: agricultura, meio ambiente e homem. Londrina: Midiograf, p. 11-21, 2016 (adaptado).

Em relação a esse assunto e a resistência de plantas daninhas a herbicidas, avalie as afirmações a seguir.

I. Uma estratégia para a redução do problema da resistência de plantas daninhas é fazer a rotação de herbicidas com diferentes mecanismos de ação.

II. A aplicação de diferentes ingredientes ativos em associação é adequada para a redução de populações de plantas daninhas de difícil controle.

III. O controle do capim amargoso (Digitaria insularis), assim como o de diversas outras plantas daninhas, deve ser feito preferencialmente com a planta adulta, em que a área foliar é maior, o que favorece a absorção foliar dos herbicidas.

IV. O manejo de diversas plantas daninhas de difícil controle, como a buva (Conyza bonariensis), requer o seu monitoramento constante e a busca de alternativas para evitar a produção de sementes.

É correto apenas o que se afirma em:
a) I e II.
b) II e III.
c) III e IV.
d) I, II e IV.
e) I, III e IV.

Gabarito: d)