As Doenças de Transmissão Hídrica e Alimentar (DTHA) – anteriormente conhecidas como Doenças Transmitidas por Alimentos (DTA) – são doenças causadas pela ingestão de água e/ou alimentos contaminados por microrganismos patogênicos, suas toxinas ou substâncias químicas.
A atualização da nomenclatura, adotada pelo Ministério da Saúde, reflete um entendimento mais preciso: a transmissão pode ocorrer tanto por alimentos quanto por água contaminada, abrangendo todo o espectro de veículos de infecção.
Esta é uma das questões mais relevantes de saúde pública no mundo. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 600 milhões de pessoas, quase 1 em cada 10 pessoas no planeta, adoecem e 420 mil morrem todos os anos devido às DTHA. No Brasil, o Ministério da Saúde registrou, entre 2007 e 2020, uma média anual de 662 surtos de DTHA, envolvendo 156.691 doentes.
Este é um conteúdo pilar sobre o tema. Aqui você vai entender o que são as DTHA, quais agentes as causam, quais são os principais sintomas, como é feito o diagnóstico e o tratamento, como prevenir, quais são as principais doenças, os tipos de contaminação, a legislação de notificação e como os profissionais da indústria de alimentos se relacionam com esse tema.
Neste artigo:
- O que são as DTHA (e por que a sigla mudou de DTA para DTHA)?
- Qual a importância das DTHA para profissionais da área de alimentos?
- O que causa as DTHA?
- Quais são os 3 tipos de contaminação de alimentos?
- Como os contaminantes chegam ao alimento?
- Quais são os sintomas comuns das DTHA?
- Quais são as principais DTAs / DTHAs?
- Infecção, intoxicação, toxinfecção e intoxicação não bacteriana: qual a diferença?
- Quais são os 10 principais tipos de doenças transmissíveis?
- Diagnóstico e tratamento das DTHA
- Como prevenir as DTHA?
- Como os órgãos de vigilância investigam um surto?
- Legislação aplicável e notificação compulsória
- Alimento estragado x alimento contaminado
- Grupos de risco
- FAQ
O que são as DTHA (e por que a sigla mudou de DTA para DTHA)?
As Doenças de Transmissão Hídrica e Alimentar (DTHA) são doenças causadas pela ingestão de alimentos e/ou água contaminados por microrganismos patogênicos, toxinas ou substâncias químicas. Mais de 250 tipos de DTHA já foram descritos no mundo, causadas por bactérias e suas toxinas, vírus, parasitas intestinais oportunistas ou substâncias químicas.
A mudança de nomenclatura: durante muitos anos, o termo utilizado foi DTA – Doenças Transmitidas por Alimentos. Com a evolução da vigilância epidemiológica, o Ministério da Saúde passou a adotar oficialmente a sigla DTHA – Doenças de Transmissão Hídrica e Alimentar, que amplia o conceito para incluir explicitamente a água como veículo de transmissão.
Essa atualização é importante porque:
- reconhece a água contaminada como um veículo tão importante quanto o alimento;
- alinha a nomenclatura nacional à utilizada em âmbito internacional e pela OMS;
- orienta as ações de vigilância, prevenção e controle de forma mais abrangente.
Na prática, os termos DTA e DTHA seguem sendo usados, mas a nomenclatura correta e atual é DTHA e é a que deve ser utilizada em documentos, laudos e materiais técnicos.
Em resumo: DTA = Doenças Transmitidas por Alimentos (termo antigo) → DTHA = Doenças de Transmissão Hídrica e Alimentar (termo atual, adotado pelo Ministério da Saúde).
Qual a importância das DTHA para profissionais da área de alimentos?
Se as DTHA são transmitidas por alimentos e água, e você trabalha na indústria ou serviço de alimentação, as DTHA têm tudo a ver com seu dia a dia. O profissional de alimentos é o elo central entre a prevenção e o consumidor: é ele quem implementa as Boas Práticas de Fabricação (BPF), os Procedimentos Operacionais Padronizados (POPs), o sistema APPCC e os Programas de Autocontrole que impedem a contaminação.
As DTHA causam enormes prejuízos aos cofres públicos devido a gastos com medicamentos, hospitalizações e perda de produtividade no trabalho. Para a indústria, um surto pode significar multas, recall, perda de mercado e danos irreparáveis à reputação.
Aprofunde: veja nossos artigos sobre surtos alimentares e intoxicação alimentar para entender como esses eventos ocorrem na prática.
Quais são os 3 tipos de contaminação de alimentos?
A contaminação de alimentos pode ocorrer de três formas distintas:
1. Contaminação biológica
É a mais comum e a mais associada às DTHA. Ocorre pela presença de microrganismos vivos, como bactérias, vírus, fungos e parasitas, no alimento. A contaminação pode ser por:
- manipuladores contaminados (mãos sujas, ferimentos, falta de higiene);
- matéria-prima contaminada (leite cru, ovos, carnes, vegetais);
- contaminação cruzada (transferência de microrganismos de um alimento para outro);
- ambiente e equipamentos sujos;
- água contaminada.
2. Contaminação química
Ocorre pela presença de substâncias químicas no alimento, como:
- resíduos de detergentes e sanitizantes utilizados na higienização;
- agrotóxicos e pesticidas em vegetais;
- metais pesados (chumbo, mercúrio) e contaminantes industriais;
- toxinas naturais (micotoxinas, como as aflatoxinas; toxinas de peixes e moluscos);
- aditivos em excesso ou uso indevido de aditivos alimentares.
3. Contaminação física
Ocorre pela presença de objetos ou materiais estranhos no alimento:
- fragmentos de vidro, metal e plástico;
- pedras, areia e sujidades;
- pelos e cabelos;
- ossos e espinhas;
- fragmentos de embalagens.
A contaminação física é a mais visível ao consumidor, mas a biológica é a mais perigosa, pois não altera necessariamente o aspecto do alimento.
O que causa as DTHA?
As DTHA podem ser causadas por inúmeros agentes etiológicos, divididos em:
Microrganismos patogênicos
- Bactérias: como Salmonella spp., Escherichia coli, Staphylococcus aureus, Clostridium botulinum, Clostridium perfringens, Listeria monocytogenes, Bacillus cereus, Campylobacter jejuni e Vibrio cholerae;
- Vírus: como o norovírus, o rotavírus e o vírus da hepatite A;
- Parasitas: como Giardia lamblia, Cryptosporidium, Toxoplasma gondii e Taenia solium (cisticercose).
Toxinas
Substâncias formadas em consequência da proliferação intensa do microrganismo no alimento. Exemplos clássicos de doenças desencadeadas por toxinas pré-formadas são as causadas por Staphylococcus aureus (enterotoxina termoestável), Bacillus cereus (cepa emética) e Clostridium botulinum (neurotoxina).
É o caso típico das doenças causadas por toxinas pré-formadas – detalhado na seção sobre intoxicação alimentar do nosso artigo dedicado ao tema.
Agentes químicos
Inseticidas, produtos utilizados na higienização de equipamentos, metais pesados ou resíduos de materiais utilizados no revestimento de equipamentos que entram em contato com o alimento. Essas contaminações químicas são muito prejudiciais à saúde e, em geral, resultam de falhas de higiene e armazenamento.
Principais agentes no Brasil
Segundo dados do Ministério da Saúde (SINAN) e estudos epidemiológicos, entre 2014 e 2023 os agentes mais frequentemente identificados em surtos de DTHA no Brasil foram:
- Escherichia coli: envolvida em cerca de 34,8% dos surtos com agente identificado;
- Salmonella spp.: um dos principais agentes, especialmente associada a alimentos à base de ovos;
- Staphylococcus aureus: frequentemente associado a alimentos manipulados e armazenados incorretamente.
Como os contaminantes chegam ao alimento?
A contaminação pode ocorrer em qualquer etapa da cadeia produtiva, da produção primária ao consumo:
- Na produção primária: contaminação da matéria-prima na fazenda (água de irrigação, solo, ração animal);
- No processamento: falhas de higiene, equipamentos contaminados, falha na pasteurização ou no tratamento térmico;
- No armazenamento e transporte: quebra da cadeia de frio, contaminação cruzada, embalagens danificadas;
- Na manipulação: manipuladores sem higiene adequada, contaminação cruzada entre alimentos crus e cozidos;
- No consumo: hábitos de consumo ou falta de informação fazem com que o consumidor manipule ou ingira o alimento de forma equivocada, o que pode incorrer em danos à saúde.
Se não houver tratamento ou controle para eliminar os contaminantes, eles poderão causar DTHA.
Aprofunde: veja nosso artigo sobre doenças transmitidas por leite para entender como a contaminação ocorre especificamente nessa cadeia produtiva.
Quais são os sintomas comuns das DTHA?
Os sintomas das DTHA são os mais variáveis possíveis. Na maior parte dos casos, estão associados a manifestações do trato gastrointestinal:
- diarreia;
- vômito;
- náuseas;
- dor abdominal;
- anorexia (falta de apetite);
- febre;
- dores de cabeça;
- desidratação.
Segundo o Ministério da Saúde, como essas doenças podem ter várias causas, não há um quadro clínico específico, os sintomas variam conforme o agente etiológico, a dose ingerida e a susceptibilidade da pessoa.
Sintomas extra-intestinais
Existem determinados microrganismos que podem levar a sintomatologias extra-intestinais, e, nesses casos, a DTHA pode evoluir para quadros graves capazes de levar o paciente à morte. Órgãos e sistemas que podem estar associados a essas patologias incluem:
- meninges (meningite);
- rins (insuficiência renal, como na síndrome hemolítico-urêmica causada por E. coli O157:H7);
- fígado (hepatite A);
- sistema nervoso central (botulismo, listeriose);
- terminações nervosas periféricas, como na Síndrome de Guillain-Barré, que pode surgir em consequência da contaminação por Campylobacter jejuni.
Período de incubação
O período de incubação muda muito entre os agentes envolvidos, podendo variar de horas a meses. Geralmente, doenças com período de incubação muito curtos (1 a 8 horas) são causadas por toxinas pré-formadas, como Staphylococcus aureus e Bacillus cereus (cepa emética), pois são patógenos ingeridos já formados, com pronta possibilidade de ação.
Quais são as principais DTAs / DTHAs?
As principais doenças de transmissão hídrica e alimentar incluem:
Salmonelose (Salmonella spp.)
Infecção bacteriana intestinal clássica, com náuseas, vômitos, dor abdominal, diarreia e febre.
Associada a ovos, carnes de aves e alimentos manipulados.
É uma das mais frequentes em surtos no Brasil.
Colibacilose (Escherichia coli)
Causada por cepas patogênicas de E. coli – como a enterotoxigênica (ETEC, causadora da “diarreia do viajante”) e a enterohemorrágica (O157:H7, associada a síndrome hemolítico-urêmica e insuficiência renal).
Associada a carnes cruas ou malpassadas, leite não pasteurizado e vegetais crus.
Estafilococose (Staphylococcus aureus)
Intoxicação por enterotoxina pré-formada termoestável, com vômitos e dor abdominal 1 a 8 horas após a ingestão.
Associada a alimentos manipulados e mantidos em temperatura inadequada (maionese, presuntos, laticínios).
Botulismo (Clostridium botulinum)
Doença neuroparalítica grave, causada pela neurotoxina botulínica.
Associada a conservas caseiras mal processadas, embutidos e alimentos enlatados.
Apenas um caso de botulismo já é considerado surto, dada sua gravidade. É de notificação compulsória imediata (24h).
Listeriose (Listeria monocytogenes)
Infecção grave que afeta principalmente gestantes, recém-nascidos, idosos e imunossuprimidos, podendo causar meningite e septicemia.
Associada a queijos não pasteurizados, embutidos e alimentos prontos para consumo refrigerados.
Toxinfecção por Bacillus cereus
Toxinfecção com duas formas: emética (vômitos, associada a arroz e massas) e diarreica.
Associada a arroz cozido mantido em temperatura ambiente.
Campilobacteriose (Campylobacter jejuni)
Uma das principais causas de diarreia bacteriana no mundo, associada a aves cruas ou malcozidas, leite não pasteurizado e água contaminada.
Pode desencadear a Síndrome de Guillain-Barré.
Hepatite A
Doença viral que afeta o fígado, transmitida por água e alimentos contaminados com matéria fecal, incluindo moluscos e alimentos manipulados por pessoa infectada.
De notificação compulsória.
Rotavirose e Norovirose
Os vírus mais comuns de DTHA, altamente contagiosos, associados a água contaminada, alimentos manipulados e superfícies, frequentes em surtos em restaurantes, cruzeiros e refeitórios.
Toxoplasmose (Toxoplasma gondii)
Parasitose associada a carnes cruas ou malcozidas, água contaminada e vegetais mal higienizados (oosistos).
Causa risco especial em gestantes e imunossuprimidos.
Segundo o Ministério da Saúde, a toxoplasmose também pode acometer a tireoide em casos de comprometimento sistêmico.
Infecção, intoxicação, toxinfecção e intoxicação não bacteriana: qual a diferença?
Muita confusão se faz em torno desses termos. Cada um deles possui uma característica diferente e não podem ser usados como sinônimos:
Infecção alimentar
Ocorre em decorrência da ingestão de alimentos contaminados por bactérias, parasitas, vírus e fungos vivos.
Uma vez presentes no trato digestivo, esses organismos penetram, se multiplicam, invadem e causam as patologias características de cada espécie.
A doença se desenvolve em consequência da ação do agente sobre o corpo do consumidor.
Exemplo clássico: a salmonelose (Salmonella spp.).
Toxinfecção alimentar
O patógeno atinge o organismo do indivíduo e, lá dentro, produz as toxinas que causam os danos e os demais sintomas.
Exemplos: infecções causadas por Escherichia coli enterotoxigênica (ETEC) e Vibrio cholerae (cólera).
Intoxicação alimentar
Ocorre pela ingestão de alimentos contaminados por toxinas pré-formadas, ou seja, produzidas antes da ingestão, durante a multiplicação do microrganismo no alimento.
O causador da doença é a toxina, e o microrganismo produtor pode nem estar presente no alimento no momento do consumo.
Exemplos: contaminação de queijos pela enterotoxina termoestável do Staphylococcus aureus e de embutidos por neurotoxinas do Clostridium botulinum.
Aprofunde: veja nosso artigo sobre intoxicação alimentar, que trata em detalhe das toxinas pré-formadas.
Intoxicações não bacterianas
Representadas por agentes não bacterianos, como:
- metais pesados (chumbo, mercúrio, cádmio);
- agrotóxicos;
- plantas tóxicas;
- animais tóxicos, como moluscos e peixes (toxinas marinhas);
- aminas biogênicas (como histamina em peixes).
Quais são os 10 principais tipos de doenças transmissíveis?
As DTHA mais frequentemente relatadas e monitoradas pela vigilância epidemiológica incluem:
- Salmonelose – infecção por Salmonella spp., associada a ovos e carnes de aves;
- Colibacilose – infecção por Escherichia coli patogênica (incluindo O157:H7);
- Estafilococose – intoxicação por enterotoxina de Staphylococcus aureus;
- Botulismo – intoxicação por neurotoxina de Clostridium botulinum (caso único já configura surto);
- Listeriose – infecção por Listeria monocytogenes, grave para gestantes e imunossuprimidos;
- Campilobacteriose – infecção por Campylobacter jejuni, associada a aves;
- Toxinfecção por Bacillus cereus – associada a arroz e massas;
- Hepatite A – infecção viral que afeta o fígado;
- Rotavirose e Norovirose – infecções virais altamente contagiosas;
- Toxoplasmose – parasitose por Toxoplasma gondii, de risco para gestantes.
Outras DTHA relevantes: febre tifoide (Salmonella Typhi), cólera (Vibrio cholerae), giardíase, criptosporidiose, cisticercose e intoxicação por histamina (escombrotoxicose).
O Ministério da Saúde monitora essas doenças por meio da Vigilância Epidemiológica das DTHA (VE-DTHA).
Diagnóstico e tratamento das DTHA
Diagnóstico
O diagnóstico das DTHA é baseado em:
- avaliação clínica: história dos sintomas, período de incubação, alimentos consumidos;
- exames laboratoriais: coprocultura (cultura de fezes), exames parasitológicos e sorológicos;
- investigação epidemiológica: análise de possível surto, hábitos alimentares dos pacientes e consumo de alimentos suspeitos.
Para a elucidação do diagnóstico, as autoridades sanitárias levam em consideração os hábitos alimentares dos pacientes afetados, o consumo de alimentos suspeitos, o tempo para aparecimento dos sintomas e a existência de outros familiares com a mesma sintomatologia.
Tratamento
O tratamento varia conforme o agente causador:
- Hidratação: é a base do tratamento da maioria das DTHA, especialmente as diarreicas (prevenção da desidratação);
- Reposição de eletrólitos: uso de soro de reidratação oral;
- Tratamento sintomático: para náuseas, vômitos e dores;
- Antibióticos: apenas quando indicados e prescritos por médico (não são indicados em todas as DTHA);
- Casos graves: internação, hidratação parenteral e suporte especializado (como no botulismo, que exige soro antibotulínico).
Importante: a automedicação é contraindicada. Nos casos de diarreia, o uso indiscriminado de antidiarreicos pode agravar o quadro. Oriente-se por profissional de saúde.
Como prevenir as DTHA?
A prevenção das DTHA é uma responsabilidade compartilhada entre indústria, governo e consumidor. As cinco chaves da OMS para alimentos mais seguros:
- Mantenha a higiene: lave as mãos antes de manipular alimentos, mantenha superfícies e utensílios limpos;
- Separe alimentos crus de cozidos: evite a contaminação cruzada;
- Cozinhe completamente os alimentos: especialmente carnes, aves, ovos e pescados;
- Mantenha os alimentos em temperaturas seguras: não deixe alimentos cozidos à temperatura ambiente por mais de 2 horas;
- Use água e matérias-primas seguras: trate a água, lave frutas e vegetais, verifique a procedência.
Para a indústria de alimentos
- Implementação das BPF (Boas Práticas de Fabricação);
- POPs (Procedimentos Operacionais Padronizados) de higienização, controle de pragas e potabilidade da água;
- Sistema APPCC para identificação e controle de perigos;
- Controle da cadeia de frio e do binômio tempo-temperatura;
- Treinamento contínuo dos manipuladores;
- Rastreabilidade e programa de recall.
Aprofunde: veja nosso artigo sobre Gestão da qualidade na indústria de alimentos.
Como os órgãos de vigilância investigam um surto?
A partir do momento em que há a notificação de um surto de origem alimentar, os órgãos de vigilância devem fazer uma investigação para elucidação do diagnóstico.
O que caracteriza um surto de DTHA?
Segundo o Ministério da Saúde, surto de DTHA é o evento em que duas ou mais pessoas apresentam doença ou sinais e sintomas semelhantes após ingerirem alimentos e/ou água da mesma origem, normalmente em um mesmo local. Para patógenos altamente virulentos, como Clostridium botulinum e Escherichia coli O157:H7, apenas um caso já pode ser considerado surto.
Etapas da investigação
- Notificação imediata ao serviço de vigilância (SINAN);
- Confirmação do surto (número de casos, nexo epidemiológico);
- Coleta de informações: hábitos alimentares, alimentos consumidos, período de incubação;
- Coleta de amostras: sobras de alimentos, água, fezes dos pacientes;
- Análise laboratorial: identificação do agente etiológico;
- Medidas de controle: remoção do alimento suspeito, correção de falhas, ações educativas;
- Encerramento do surto: após investigação e elucidação do evento.
Legislação aplicável e notificação compulsória
Notificação compulsória de DTHA
A notificação de surtos de DTHA é compulsória e deve ser feita por profissionais de saúde e serviços de saúde ao Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN). A base legal é a Portaria de Consolidação GM/MS nº 4/2017 (que consolida as normas sobre os sistemas nacionais de informação em saúde), com as atualizações periódicas do Anexo 1 do Anexo V – a Lista Nacional de Notificação Compulsória de doenças, agravos e eventos de saúde pública.
Atualizações recentes relevantes:
- Portaria GM/MS nº 217/2023 – alterou itens da Lista Nacional de Notificação Compulsória;
- Portaria GM/MS nº 5.201/2024 – incluiu novas doenças na lista;
- O botulismo exige notificação imediata (24 horas); outras DTHA (como surtos) seguem fluxo próprio de notificação ao SINAN.
Doenças relacionadas a DTHA na lista de notificação compulsória incluem: botulismo, cólera, febre tifoide, hepatite A, rotavirose e o surto de DTHA em geral.
Legislação sanitária relacionada
| Legislação | O que estabelece |
| Portaria de Consolidação GM/MS nº 4/2017 | Consolida os sistemas de informação em saúde; base da notificação de DTHA ao SINAN. |
| Lei nº 6.437/1977 | Configura as infrações à legislação sanitária federal (aplicável a estabelecimentos que causem DTHA por falhas). |
| RDC ANVISA nº 216/2004 | Boas práticas para serviços de alimentação (prevenção de DTHA). |
| RDC ANVISA nº 275/2002 | POPs e lista de verificação das BPF para indústrias. |
| Portaria MS nº 1.428/1993 | Diretrizes de boas práticas de produção e APPCC. |
| Decreto nº 9.013/2017 (RIISPOA) | Programas de autocontrole e inspeção de produtos de origem animal. |
| Lei nº 14.515/2022 (Lei do Autocontrole) | Programas de autocontrole dos agentes privados regulados pela defesa agropecuária. |
Alimento estragado x alimento contaminado
Uma das dificuldades dos órgãos de investigação epidemiológica é detectar as fontes de um surto justamente pelo fato de o produto consumido, e responsável pela DTHA, não estar sensorialmente estragado.
Isso ocorre porque a carga microbiana pode estar presente no alimento em uma dose capaz de causar danos ao consumidor, mas insuficiente para degradar o alimento. Em consequência, torna-se de suma importância prevenir a contaminação microbiológica dos alimentos e não apenas confiar na avaliação sensorial.
Alimento estragado = sofreu deterioração (alterações visíveis de odor, textura, sabor). Alimento contaminado = contém microrganismos patogênicos ou toxinas em dose capaz de causar doença, ainda que sem sinais sensoriais de deterioração.
Grupos de risco
Qualquer pessoa está sujeita a adquirir uma DTHA. No entanto, existem grupos com maior predisposição a infecções graves:
- crianças (especialmente até 5 anos);
- idosos;
- gestantes (risco aumentado para listeriose e toxoplasmose);
- imunossuprimidos (pacientes com HIV, em quimioterapia, transplantados, diabéticos);
- pessoas com doenças crônicas;
- viajantes (exposição a agentes de outras regiões).
Para esses grupos, a prevenção é ainda mais crítica e qualquer sintoma de DTHA deve ser avaliado por um profissional de saúde.
FAQ – DTHA
1. O que causa as DTHA?
As DTHA são causadas pela ingestão de água e/ou alimentos contaminados por microrganismos patogênicos (bactérias, vírus, parasitas), toxinas ou substâncias químicas.
2. Quais são os sintomas comuns?
Diarreia, vômito, náuseas, dor abdominal, anorexia, febre e dores de cabeça. Em casos graves, podem ocorrer sintomas extra-intestinais (meningite, insuficiência renal, paralisia, síndrome de Guillain-Barré).
3. Como é feito o diagnóstico e o tratamento?
O diagnóstico é clínico e laboratorial (coprocultura, exames parasitológicos) + investigação epidemiológica. O tratamento baseia-se em hidratação, reposição de eletrólitos e, quando indicado, antibióticos prescritos por médico.
4. Como prevenir as DTHA?
Seguindo as 5 chaves da OMS: higiene, separação de crus e cozidos, cocção completa, temperaturas seguras e uso de água/matérias-primas seguras. Na indústria: BPF, POPs, APPCC e treinamento.
5. Quais são as 10 principais doenças transmissíveis?
Salmonelose, colibacilose, estafilococose, botulismo, listeriose, campilobacteriose, toxinfecção por Bacillus cereus, hepatite A, rotavirose/norovirose e toxoplasmose.
6. Quais são os 3 tipos de contaminação de alimentos?
Biológica (microrganismos), química (substâncias tóxicas) e física (objetos/materiais estranhos).
7. Quais são as principais DTAs?
As mais frequentes: salmonelose, colibacilose (E. coli), estafilococose, botulismo, listeriose, campilobacteriose e hepatite A.
8. Que doenças a tireoide pode causar?
A pergunta “que doenças a tireoide pode causar” é uma busca frequente associada ao tema, mas trata-se de um equívoco semântico: a tireoide (glândula) não “causa” doenças transmissíveis. No contexto das DTHA, o que pode ocorrer é a toxoplasmose acometer a tireoide em casos de comprometimento sistêmico, ou alterações tireoidianas agravarem quadros infecciosos. É importante esclarecer essa confusão popular, já que o tema é buscado junto à palavra-chave DTHA.
Conclusão
As Doenças de Transmissão Hídrica e Alimentar (DTHA), anteriormente DTA, estão entre os problemas de saúde pública mais relevantes do mundo, afetando cerca de 600 milhões de pessoas por ano. Para o profissional da indústria de alimentos, o conhecimento profundo sobre as DTHA é essencial: é ele quem aplica as BPF, os POPs, o APPCC e os Programas de Autocontrole que previnem a contaminação e protegem a saúde do consumidor.
Da nomenclatura atualizada (DTHA) aos agentes etiológicos, sintomas, formas de transmissão, diagnóstico, tratamento e prevenção, dominar esse tema é indispensável para analistas de qualidade, responsáveis técnicos, consultores e também para quem se prepara para concursos da área de vigilância e inspeção sanitária.
Se você quer aprofundar seus conhecimentos em segurança de alimentos e prevenção de DTHA, o Ifope oferece pós-graduações e cursos de capacitação em Gestão da Qualidade e Segurança de Alimentos – incluindo BPF, APPCC, Programas de Autocontrole e sua aplicação prática na indústria. Transforme conhecimento em proteção à saúde e em diferencial de carreira.



EXCELENTE MATERIAL PARA PESQUISA